UMA ODISSÉIA EM RONDÔNIA – EXPEDIÇÃO ROOSEVELT E RONDON – News Rondônia

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UMA ODISSÉIA EM RONDÔNIA – EXPEDIÇÃO ROOSEVELT E RONDON

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA ROOSEVELT-RONDON

O Governo Federal, na gestão do presidente Rodrigues Alves, fez publicar o edital de concorrência para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no ano de 1905, ocasião em que se vislumbrou, ainda, a necessidade, de, também, construir uma linha telegráfica interligando o Rio de Janeiro, então capital da República, a localidade de Santo Antônio do Rio Madeira, sede inicial das obras da estrada, de forma a abranger toda a região oeste do país, ainda sub povoada e tida, em sua maior parte, como “desconhecida”.

Como já sabemos, construção da linha telegráfica possibilitaria a dinamização das comunicações entre os extremos territoriais, até então separados pela própria grandeza e ou outro mecanismo de acesso, possibilitando uma maior integração dos povos, com a informação de fatos, acontecimentos e interesses econômicos, bem como viabilizaria a integração de extensa região do país.

É de ressaltar-se que esta linha, quando concluída, se interligou a outra, procedente do Rio de Janeiro. Isso atendeu, igualmente, o desiderato proposto pelo próprio Rondon, sobre a necessidade de abrasileirar os brasileiros, uma vez que os interesses administrativos da jovem república estavam circunscritos apenas aos frequentadores dos palácios e adjacências, não diferenciando, neste sentido, da monarquia substituída.

Assim, quando no ano de 1907, Cândido Mariano da Silva Rondon, oficial do Corpo de Engenharia Militar, destacado por sua notável experiência na construção e manutenção de linhas telegráficas no oeste brasileiro, foi nomeado pelo Presidente da República, Afonso Pena, para chefiar a Comissão das Linhas Telegráficas e Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, oportunamente conhecida como Comissão Rondon, especialmente criada pelo Ministério da Guerra.

A majestosa obra se desdobraria em duas partes. Uma, inicial, de reconhecimento do território a ser percorrido, que se deu então em três etapas:

1ª) A “Expedição de 1907”, partiria de Cuiabá indo até o ponto em que alcançaria rio Juruena. Tarefa que resultou concluída em 20 de outubro de 1907;

2a) A “Expedição de 1908”, partiria do rio Juruena, que se deu em 20 de julho de 1908, com o objetivo de atingir a Serra do Norte e

3a) A “Expedição de 1909”, que foi dividida em duas: – uma chamada “Turma do Norte”, que teria como incumbência sair de Santo Antônio do Rio Madeira e subir até as cabeceiras do rio Jaci-Paraná, onde estacionaria aguardando a chegada da outra, a “Turma do Sul”, que chefiada pelo próprio Rondon partiria da Serra do Norte em direção às cabeceiras do aludido rio. Foi, entretanto, no ano de 1909, que a terceira expedição Rondon partiu do Juruena e varou inteiramente a mesopotâmia que se acha entre ele e o Madeira.

A cartografia mais atualizada registrava a área como “desconhecida”[1], porquanto apenas o caminho das águas e suas adjacências eram conhecidos de longa data.

Novos cursos d’água foram descobertos, entretanto, “Nenhum rio suscitou duvidas tão numerosas e duradoiras, como o correspondente á nascente que descobrimos no dia 16 de julho de 1909 (Expedição de 1909), no paralelo de 12º39’ Sul, e á qual demos então o nome de cabeceira do Urú.

“Da coluna exploradora fazíamos parte eu, os tenentes Lyra e Amarante, e o dr. Miranda Ribeiro, zoologo do Museu Nacional. A alguns de nós parecia que as águas dessa cabeceira corriam para o Guaporé; outros opinavam que elas seriam do Madeira. O problema que assim surgiu, merecia ser estudado e resolvido, não só pelo interesse que nos despertava no ponto de vista fotamographico, como tambem pelo que se ligava ao prosseguimento dos trabalhos relativo ao traçado da linha telegraphica.”³

“… Mas no dia 26, quando já reunida a minha turma com a do tenente Lyra, voltamos para o Oriente, deparou-se-nos um riacho da largura de 12 metros, correndo na direção N. N. O.

Novas controvérsias surgiram: d’onde provinha este riacho? Da nascente a que déramos o nome de Urú ou do Toloiry-inazá?

Como não fosse possivel, na ocasião, acordar as duas opiniões, resolvi assinalar aquelas águas com o nome de “Duvida”, porque para mim, eram elas as mesmas que nos acabavam de criar tantos embaraços na discriminação das bacias do Madeira e do Guaporé.” [2]

Todavia, em face do volume de trabalho a ser executado na edificação da futura linha telegráfica e a escassez de tempo, recursos e material humano, o levantamento do aludido rio ficou postergado para oportunidade futura.

Theodore Roosevelt foi, além de militar, o 26° presidente dos Estados Unidos, tendo governado entre 1901 e 1909. Assim que deixou a Casa Branca, participou de um safári de quase um ano na África, ao lado do filho, Kermit. Em, depois de ter perdido as eleições do ano anterior, resolveu se votar novamente a seu espírito aventureiro. Assim, em dezembro daquele ano se formaria a Expedição Científica Roosevelt-Rondon – que ganhou esse nome depois que Cândido Rondon, desde 1907 envolvido com ocupação da selva amazônica através da implantação de linhas de telégrafo, exigiu que a expedição tivesse o objetivo científico de navegar e mapear o rio da Dúvida, descoberto por ele mesmo alguns anos antes na Amazônia. Por isso, posteriormente o Rio da Dúvida foi rebatizado de Rio Roosevelt logo após a expedição – que não foi fácil e animada como o safári africano, muito longe disso. “O mito da benfazeja natureza não pode ser aplicado à crueldade da vida nos trópicos”, escreveu Roosevelt em seu diário. Ele e seu filho Kermit contraíram malária, passaram fome e tiveram de enfrentar longos dias sobre o lombo de burros ou, pior, em canoas que brigavam com as pedras e correntezas do rio da Dúvida. O ex-presidente americano perdeu 30 quilos em cinco meses de privações, que resultaram no livro “Nas selvas do Brasil”, escrito por Roosevelt e dedicado, por ele, a Rondon.

De outra parte, desde o ano de 1908, quando Roosevelt concluíra seu mandado presidencial, Father Zahm, seu amigo e companheiro de leitura de Dante, sugerira ao mesmo a possibilidade de promover uma excursão à América do Sul. Entretanto, ele estava ainda empenhado, a realizar uma viagem ao continente africano, sua vinda à América, como proposto por Zahm, haveria de aguardar futura ocasião.

Posteriormente, em 1913, ao aceitar convites das repúblicas Argentina e Brasileira para fazer conferencias, Theodore Roosevelt, deliberou que, ao final destas percorreria o sertão até o Amazonas, atendendo a indicação do amigo, com o fito de estudar a fauna da região tempo em que coletaria exemplares destinados a enriquecer o acervo do American Museum of Natural History de New York.

O museu preocupado não somente com o êxito da expedição, uma vez que eventual fracasso poderia comprometer-lhe a reputação, mas também com a segurança pessoal do ex-presidente dos Estados Unidos e demais membros da comitiva, cogitava de encontrar alguém que efetivamente conhecesse a região, para acompanhá-los, oferecendo o suporte necessário.

Domício da Gama, embaixador brasileiro nos Estados Unidos, prontificou-se a viabilizar ajuda para o transporte das cinco toneladas de bagagens e dos pesados barcos que acompanhavam a comitiva do Rio Paraguai até o local inicial da expedição.

Além do indispensável auxílio, o embaixador, ofereceu ao ex-presidente Roosevelt o mais valoroso guia, o então Coronel Rondon, comandante das Linhas Estratégicas e Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas, que na ocasião contava com 48 anos de idade, que deveria escudá-lo no percurso a ser empreendido.

Rondon, assoberbado que estava na edificação da Linha Telegráfica, encontrava-se na estação Barão de Melgaço, nas imediações de Pimenta Bueno, quando, a 04 de outubro, recebeu telegramas do ministro da Guerra, Viação e Exterior sobre a indicação de seu nome para organizar a comissão que deveria acompanhar o Sr. Roosevelt, na viagem que o mesmo pretendia encetar pelo interior do país.

Em face das inúmeras providencias que deveria adotar, diante da nova incumbência, rumou para o rio de Janeiro e a 11 de novembro apresentou-se aos Ministros indicando que aceitaria o encargo de acompanhar ilustre visitante “… sob a condição de que a expedição não circunscreveria sua atividade a uma expedição com episódios cinegéticos …”.[3] Em consequência do que resultou aprovado o plano de organização da “Expedição Científica Roosevelt-Rondon”, na proposta de serem realizados estudos geográficos e de história natural.

Propôs, ainda, Rondon, que “De todos os caminhos a seguir, parecia-me preferível tomar pelos rios Arinos, Juruena, Papagaio e Dúvida. … Mandei, entretanto, preparar, em nossa seção de desenho, cartas de cinco itinerários, para que o Itamarati os submetesse à apreciação de nosso ilustre hóspede – escolheu ele o que maior número de dificuldades e imprevistos oferecia: o do rio da Dúvida.” [4]

Assim, a 12 de dezembro de 1913, Rondon foi aguardar a chegada de Theodore Roosevelt, que vinha transportado pela canhoneira paraguaia, subindo o rio Paraguai, na Barra do Rio Apa.

Depois do cumprimento das devidas formalidades, seguiram rio acima, até alcançarem a estação Tapirapuã e dali demandaram em marcha por mais 650 quilômetros cruzando vastas extensões de cerrados e matas densas até alcançarem a margem do rio que resultaria percorrido.

Somente a 27 de fevereiro de 2014 iniciou-se a descida pelo rio da Dúvida, tendo como ponto inicial 12° 1’ da latitude Sul e 17° 7’ 34’’ de longitude Leste do Rio de Janeiro, nas imediações da Estação José Bonifácio, em direção ao Norte.

Parte da mesma expedição, composta pelo Capitão Amílcar, Eusébio Oliveira e Miller marchariam até alcançar o rio Comemoração de Floriano que, na sua confluência com o Pimenta Bueno, formam o Ji-Paraná, desceriam este e continuariam pelo Madeira, até Manaus.

Cogita Rondon no sentido de que “Poderíamos estar daí a uma semana no Gi-Paraná, daí a seis no Madeira ou daí a três meses, não se sabe onde – Era o rio da Dúvida.” [5]

O rio da Dúvida, que a linha telegráfica havia transposto quando trafegava de Juruena em direção a Vilhena, era tido, até então, como afluente da margem direita do rio Comemoração de Floriano (Barão de Melgaço), até que em 1913 o Tte. Amarante, depois de proceder meticuloso levantamento no Rio Comemoração de Floriano, concluiu que tal hipótese era absolutamente infundada.

Logo, a dúvida pendente sobre rio da Dúvida, se alargava. Com isso, o próprio Rondon, a partir daí, formulou a hipótese de que o rio da Dúvida só poderia ser a parte superior de um rio conhecido pela sua foz com o rio Madeira, sob o nome de Aripuanã. O que se evidenciou, oportunamente, ao final da própria expedição, estar ele acobertado de razão no tocante a possibilidade anteriormente apresentada.

A importante expedição científica iria perdurar até o final do mês de abril do ano de 1914. Ao longo de 59 dias foram percorridos 686.360 metros e os componentes da valorosa expedição estavam debilitados pelo cansaço e inúmeras doenças.

No dia 26 de abril os desbravadores encontraram o Tenente Pirineus que, há mais de um mês, os aguardava com suprimentos e um barco a vapor que os levariam em demanda a Manaus.

Em 27 de abril, resultou inaugurada uma placa, salientando, na leitura da Ordem do ia, que “… o rio cuja parte superior tinha chamado rio da Dúvida, nos mapas da comissão, a grande parte desconhecida que acabávamos de percorrer, o rio que os seringueiros chamavam Castanho e o Baixo Aripuanã eram todos um só e grande rio, com 1.409 quilômetros 174 metros, avançando uniformemente, sem deflexão. E que, por ordem do Governo Brasileiro, esse rio, o maior afluente do rio Madeira, com suas nascentes a 13° e sua foz a 5° de latitude Sul, inteiramente desconhecido dos cartógrafos e até, em grande parte, das próprias tribos locais, tinha recebido o nome de rio Roosevelt.” [6]

No amanhecer do dia 30 de abril chegavam à Manaus, onde Roosevelt recebeu cuidados médicos antes de prosseguir à Belém, de onde retornaria a sua pátria.

Além da descoberta de um novo rio em Rondônia, inúmeras contribuições científicas foram o resuldado da expedição, entre elas: Roosevelt acabou por descrever a viagem na obra “Through the Brazilian Wilderness”, um livro escrito por Rondon conhecido apenas como “A Barra – 1.500km 423”, outra obra “Coronel Roosevelt’s South American Expedition for the American Museum of Natural History”, e evidente o melhor reconhecimento da região sob tudo a fauna, flora e geografia.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

[1] Cartas da Província de Mato Grosso. F. A. Pimenta Bueno. 1880.

[2] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Ed. Globo, Porto Alegre, 1930. pg. 170.

[3] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 2010.

[4] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 2010. Pág. 373

[5] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 2010. Pág. 377.

[6] VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro, 2010. Pág. 407.

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Fonte: Aleks Palitot

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