A SUCURI QUE OS AMERICANOS MATARAM EM VILA MURTINHO – News Rondônia

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A SUCURI QUE OS AMERICANOS MATARAM EM VILA MURTINHO

As igarités desciam de Vila Bela de Santíssima Trindade em direção a Santo Antônio, através dos rios Guaporé, Mamoré e Madeira, carregados de toda espécie de mercadoria recolhida das entranhas da rica selva Amazônica guaporeana. Durante a navegação pelos Rios Guaporé e Mamoré, estas rústicas e quase indestrutíveis embarcações deslizavam tranquilamente por suas águas sonolentas e plácidas, até desembocarem nas agressivas e barrentas águas do Rio Madeira.

Em Vila Murtinho, onde estes majestosos rios amazônicos se abraçam e se enroscam nas frias e velozes águas do Beni, que desce da cordilheira, zangado, arrastando toneladas de sedimentos e troncos grossos de árvores, estes batelões atracavam no mais importante porto que havia entre Vila Bela de Santíssima Trindade e o arraial Santo Antônio das cachoeiras do Rio Madeira.

No porto, localizado nas proximidades onde hoje existe a majestosa Igreja de Santa Terezinha, havia uma grossa e secular gameleira, onde os comboeiros amarravam suas preciosas embarcações, e subiam acompanhados de mascates para o povoado em busca de castanha, borracha, poaia, peles de animais silvestres e das poucas putas bolivianas que havia no lugar.

Durante o tempo que permaneciam atracados, os comboeiros preparavam seus alimentos nas próprias embarcações. As vísceras dos animais que compravam durante o percurso ou em Vila Murtinho, geralmente, catetos, veados, pacas ou tatus, eram lançadas ao rio e viravam comida de piranhas, candirus ou jaús.

Os pescadores e ribeirinhos que também atracavam suas pequenas canoas no porto, passaram a notar a presença de uma grande sucuri nas proximidades do local, talvez atraída pela comida que era atirada nas águas do Mamoré. O ribeirinho Moacir Almeida afirmava, enfaticamente, que vira o imenso animal atacar alguns porcos que fuçavam nas margens do rio em busca de alimento.

O medo de ser devorado pelo imenso animal fez pescadores reforçarem suas canoas, e poucos arriscavam atracar no local, depois do entardecer.

Nesta época, os construtores da Estrada de Ferro Madeira Mamoré já se aproximavam do povoado, com suas máquinas e ferramentas rudimentares, arrastando toneladas de terra para moldar o aterro da futura ferrovia. Um grupo de americanos foi o primeiro a instalar-se no povoado, com suas geringonças estranhas e comidas enlatadas.

Em pouco tempo, eles também ficaram sabendo da “sucuri do porto”, capaz de medir até dez metros, afirmava Moacir Almeida, e que fazia parte do imaginário de todos do lugar. Não sabendo como matar o animal, Moacir pediu ajuda aos recém-chegados, quem sabe em algumas daquelas caixas fortemente lacradas não houvesse a solução para o problema.

Em uma daquelas caixas ele retirou vários explosivos e outros materiais que ninguém do povoado jamais imaginasse que existissem, e começou a fabricar uma bomba, com o formato e tamanho de uma botija de gás de treze quilos.

Finalmente, chegou o esperado dia, em que os americanos iriam exterminar a grande sucuri do porto, com aquela bomba parecida com uma péla de borracha que os seringueiros conheciam tão bem. Dois deles carregando aquele objeto estranho desceram a barranca do rio, e em uma canoa, se afastaram de suas margens, uns quarenta metros, mais ou menos, onde era comum vê a imensa sucuri levantar sua tenebrosa cabeça negra.

Toda a população de Vila Murtinho e arredores compareceu, ansiosa e assustadas às margens do porto, imaginando que aqueles americanos amarelos, estavam loucos varridos. Com uma poronga que o engenheiro levava em sua cabeça, ele acendeu um pavio, protegido por uma cápsula flutuante e soltou a bomba no local indicado.

Rapidamente, eles retornaram às margens do rio, e subiram para onde estava a multidão apreensiva. Passaram-se dez minutos e o silêncio continuava, somente se ouvia o murmurar das pessoas e as águas do Madeira estourando nas pedras da cachoeira. O estrondo que se seguiu ao silêncio, fez muitos curiosos fugirem do local, pensando que fosse o fim do mundo, outros caíram estatelados ao solo, e não poucos ficaram semanas com o eco do estouro lhes queimando os tímpanos.

Uma imensa onda formou-se e seguiu em direção à cachoeira, como se fosse uma pororoca cobrindo o pedral e arrastando galhos, canoas e sedimentos da margem do rio. Boquiabertos, os habitantes que ainda permaneciam no local, viram quando um imenso pedaço da cobra, medindo, uns seis metros, boiou, seguido por outro, talvez do mesmo tamanho.

Não era possível, disse Moacir Almeida, ao observar a cena, que esta sucuri viveu tanto tempo às portas das nossas casas, “ela seria capaz de engolir todos nós e ainda ficar com fome”, disse assustado, abraçando e agradecido ao cerebral engenheiro. Dias depois, na ilha que fica abaixo do povoado, centenas de urubus passaram semanas alimentando-se de um imenso pedaço da sucuri que desceu e ficou presa em um banco de areia. Diz o imaginativo Moacir que só esse pedaço, deveria medir uns quinze metros.

Autor: Simon O. dos Santos – (Amazônida e Filho da Ferrovia), Jornalista Profissional, Mestre em Ciências da Linguagem e Membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

Conto baseado no relato de Antônio Ângelo da Silva, 73 anos, amazônida, neto de um casal que migrou de Vila Bela de Santíssima Trindade, no início do século XX, para Vila Murtinho, Joaquim Araújo e Maria Luiza da Silva. Ele morreu com 110 anos e ela com 94 anos, ambos estão enterrados no cemitério de Vila Murtinho.

Antônio Ângelo nasceu em Vila Murtinho e lembra com clareza das estórias, histórias, mitos e imaginários deste povo que viveu e vive às margens do Berço do Madeira.

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Fonte: Simon O. dos Santos

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