A MADEIRA-MAMORÉ E A I GUERRA MUNDIAL – SÉRIE 100 ANOS DE PORTO VELHO – Gente de Opinião

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A MADEIRA-MAMORÉ E A I GUERRA MUNDIAL – SÉRIE 100 ANOS DE PORTO VELHO

I Guerra Mundial, chamada a “guerra das trincheiras” teve participação de funcionários da Madeira-Mamoré e tecnologia da Comissão Rondon

1.Este ano o município de Porto completará 100 anos de criação, próximo dia 2 de outubro. Por uma estranha coincidência histórica, a primeira Guerra Mundial (1914-1918) também completa 100 anos. Considerada a mais terrível guerra da história da humanidade a data praticamente coincide com a da Madeira-Mamoré, considerada a obra ferroviária mais cruel jamais construída em tempos de paz, e, nos dias atuais luta para ser reconhecida pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Pois bem. A I Guerra Mundial, ocorrida na Europa, tem uma relação de proximidade e participação da ferrovia Madeira-Mamoré, como se verá a seguir. Durante o conflito, a Amazônia brasileira ainda era a maior produtora de borracha silvestre do mundo, apesar dos avanços da borracha cultivada no sudeste asiático nos mercados europeus e norte-americano. O governo brasileiro, as autoridades da Amazônia e do Mato Grosso e os seringalistas pareciam não dar muita importância aos efeitos do plantio de seringueiras nas colônias inglesas, francesas, holandesas, belgas e norte-americanas, a exemplo da Malásia, Ceilão, Hong Kong, Vietnam e Filipinas, a despeito dos alertas da Indian Rubber World, do Wortrade Board e do New-York Latex, que fixavam o preço da borracha e determinavam o câmbio no mercado internacional. Mesmo assim, a Amazônia exportou no início do conflito, e talvez por conta disso, 37 mil toneladas de borracha.

2.Neste cenário extrativo, produtivo e exportador, a ferrovia Madeira-Mamoré, com seu sistema intermodal de transporte intermodal rodo-ferro-hidroviário e marítimo teve importante papel no escoamento da economia amazônica. Esse foi um dos motivos que fizeram a empresa decidir aumentar seu quadro de funcionários e importar mais mão de obra estrangeira, entre 1914 e 1918, notadamente trabalhadores antilhanos e caribenhos, procedentes de Barbados, Santa Lúcia, Trinidad-Tobago e Nova Granada, dentre outros. Esses súditos ingleses aportavam em Porto Velho e eram locados ao longo da ferrovia até Guajará Mirim, onde iriam exercer funções de maquinistas, foguista, mecânicos, telefonistas, telegrafistas, carpinteiros e outras atividades na empresa.

3.Enquanto isso, a nível nacional, o governo federal buscava uma maneira de entrar na guerra, alistando brasileiros e, por extensão, estrangeiros residentes no Brasil de nacionalidade inglesa, francesa ou norte-americana. Desse modo, no início de agosto de 1918, o Congresso Nacional aprovou o projeto nº 085/1918, de autoria do deputado federal Nicanor do Nascimento, RJ, deliberando sobre a mobilização de estrangeiros no Brasil, súditos das nações aliadas, no caso de haver mobilização de tropas brasileiras, o que de fato viria a ocorrer. Por fim, o Brasil entrou no conflito e mobilizou para o campo de guerra europeu tropas terrestres e navais embarcadas nos navios a vapor “Bahia” e “Rio Grande do Sul”, em três destroyers, o “Parahyba”, o “Rio Grande do Norte” e o “Santa Catarina”, no cruzador “Belmont” e no rebocador “Laurindo Pita”.

4.Estava dado o sinal para o alistamento de voluntários estrangeiros. É aí que entram a Madeira-Mamoré e os negros antilhanos. Súditos ingleses, dispostos a participar da guerra, 48 funcionários da empresa Madeira-Mamoré, denominados genericamente barbadianos, partiram para a guerra no dia 1º de setembro de 1918. Esses voluntários viajaram até Belém, onde foram embarcados no vapor Tupy, com destino a Londres, para serem incorporados aos batalhões negros que combatiam os alemães e seus aliados. A guerra estava no final e não se tem notícias se eles entraram em combate, se retornaram ou se morreram na guerra. E lá se vão 96 anos de história brasileira, porto-velhense da Madeira-Mamoré. Por esta razão, esta coluna resolveu trazer a lume esta parte da história regional, talvez desconhecida para muitos estudiosos e professores e, até, por familiares destes homens, negros antilhanos, que, partindo de Porto Velho, da Madeira-Mamoré, foram servir ao Reino Unido, como cidadãos ingleses, na I Guerra Mundial.

5.Eis os seus nomes: Sidney Willians, J. Harrison, Donald Prescott, Franklin Clovis, Sinclair Clement, Norman Phillipps, James Edward, Sam Brown, Mac Donald Francis, Stanley Lewis, Alfred Archibald Jones, Gerald Odion, Milton Messiah Murray, Leonard Trotman, Arthur Nathanael Niles, Charles Seakless, Ruben Phillipps, Preston Springer, Eleazar Rock, Lionel Silvester, Hollosced Stacey Granble, Thomas Bradford, James Hicks, Joseph Mings, Charles Kirton, Willian Chesterfield, Willock James Jordan, George Lewis Moore, Cecil Greennidge, Henry Blebby Phillipps, Ruppert Burnet, Westerman Alonza Levine, Clarence Gardner Fritsgerald, Cecil Oliveira, Joseph Theophilus Camford, James Lorenzo Ashby, Motley Howard Phillipps, Eric Bourn, Isley Bowen, Arnold Fite Roberts, Peter Dubon, Adolpho Scotty, Wibbert Cumberbaten, Isaac Springer, Eustage Holder, e Herman Hoppin.

6.Portanto, se os trens da Madeira-Mamoré transportaram borracha para a I Guerra Mundial, como de fato ocorreu, a empresa The Madeira-Mamoré Railway Company Limited, liberou seus funcionários para participarem do mais grave conflito mundial. Esta coluna presta homenagem a espera ter contribuído para a elucidação de uma importante parcela da História de Porto Velho e de Rondônia.

A COMISSÃO RONDON – Mas, a I Guerra Mundial também se relaciona com a Comissão Rondon. Se não com homens em armas, mas com tecnologia. Foi primeira vez que foram utilizados veículos sobre esteiras rolantes: os tanques. Essas esteiras que permitiam aos veículos pesados percorrerem caminhos íngremes e pantanosos no cenário de guerra, e arrasar as trincheiras (foi a guerra das trincheiras escavadas), surgiram na Comissão Rondon, com ideia do oficial Alencarliense do Amarante, que criou o mecanismo no ano de 1909 para que os veículos da legião Rondon pudessem percorrer os picadões abertos na floresta durante as penetrações da Comissão Rondon. Não se sabe o meio, mas a indústria alemã tomou conhecimento do artefato inventado por necessidade de se cruzar as regiões pantanosas do Mato Grosso, e terminou aproveitando-o como modelo para as esteiras dos tanques de guerra.

Historiador e analista político(*)
Porto Velho, 1º.09.2014

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