VILA MURTINHO E AS SUAS PUTAS POBRES | Portal Mamoré

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VILA MURTINHO E AS SUAS PUTAS POBRES

V10Quando nasci, no início do inverno de 1912, a Estrada de Ferro Madeira Mamoré tinha sido recém inaugurada. Meu pai, Antônio Buendía, não teve tempo de comemorar o nascimento de mais um filho, preocupado com o sustento diário da família. Sua casa ficava no enclave dos rios Mamoré e Beni, em Vila Murtinho, um pouco abaixo da foz do barrento e caudaloso rio Madeira.

Filho de nordestinos, Antônio Buendía chegara nesta longínqua região amazônica em 1907, início da construção da Madeira Mamoré. Era jovem, garboso e ostentava um tênue bigode que lhe dava ares de imperador chinês.

Minha madre chegara ainda mocinha na região do Iata, vinda da cidade de Paragominas, um pequeno povoado no distante Estado do Pará. Ela conhecera o imperador chinês numa tarde de domingo, em um campo de futebol na segunda Linha da Colônia Agrícola do Iata. Minha madre jamais esquecera aquele homem de sorriso largo, desfilando pelo campo sua graça e leveza, tal qual, uma Maria Fumaça surgindo após a curva sinuosa da cachoeira Madeira, a procura de descanso na imponente estação de Vila Murtinho.

Casaram-se no início do mês de dezembro do mesmo ano, em uma cerimônia iluminada pelas lamparinas fumarentas exalando fuligem e tingindo de preto a abóbada da Igreja de Nossa Senhora dos Seringueiros, localizada no centro do povoado do IATA. Mudaram-se para Vila Murtinho no mesmo mês, onde nasceria o primogênito em uma noite de lua cheia ao som da orquestra das corredeiras do Madeira. O povoado de Vila Murtinho era formado por aproximadamente oitocentas famílias, além de ser um famoso entreposto comercial, era mais importante que a incipiente cidade de Guajará-Mirim, encravada na histórica vala do saudosismo e do esquecimento perene, às margens do Mamoré e de frente para a serra dos Parecis.

Vila Murtinho, de frente para imensos seringais, tinha em suas costas dois imensos rios a separar-lhe de terras bolivianas. Era um colosso efervescente bem no meio do fim do mundo, onde chegavam e partiam nordestinos, bolivianos, libaneses, turcos e uma infinidade de aventureiros que vislumbravam futuro próspero em suas terras. As chuvas de fevereiro prenunciavam um inverno ainda mais rigoroso, mas ninguém conseguiria imaginar que a vida em Vila Murtinho nunca mais seria a mesma depois que aquele inverno acabasse.

As primeiras pistas não tardariam a chegar. No dia doze de fevereiro, os rios começaram a inundar o pequeno povoado, poucos deram importância ao caso, pois era sabido que desde sua fundação por um grupo de missionários católicos, as cheias nunca chegaram a atingir as residências mais próximas das margens do Mamoré e Madeira.

Pouco a pouco, os moradores foram percebendo que aquele ano seria diferente, o volume de água que descia do Beni era muito superior aos demais. Lentamente as águas foram inundando as ruas mais próximas dos rios, algumas casas já começavam a ficar submersas, e o ritmo de vida no povoado começava a ficar mais intenso. Em poucos dias a água chegara ao pátio da Igreja de Santa Terezinha, se aproximou da estação ferroviária e começou a recobrir os trilhos da ferrovia.

Os moradores foram sendo desalojados de suas casas e abrigados em barracos improvisados nas áreas mais altas do povoado. O vai e vem de montarias deu lugar ao tráfego de canoas nas ruas inundadas. As pessoas acreditando que logo as águas baixariam não perceberam que alguns trechos da ferrovia ficaram submersos, impedindo a passagem dos trens, deixando Vila Murtinho e Guajará-Mirim completamente isolados de Porto Velho.

O isolamento durou quase três meses, deixando as pessoas desoladas e aflitas, pois já faltavam mantimentos no lugar. Alguns comerciantes, aproveitando-se da situação, ofereciam os poucos produtos que restavam nas prateleiras por preços abusivos. A cheia inundou planícies na Bolívia e boa parte das áreas gomíferas em Guajará e Vila Murtinho, os poucos seringueiros que ainda se arriscavam pelas estradas de seringas, chegavam nas árvores para retirarem o látex, a bordo de canoas.V14

A produção de borracha paralisou, os seringalistas mantinham centenas de pélas nos armazéns. Chegar com essa produção em Porto Velho era tarefa impossível, não havia alternativa, as corredeiras do Madeira impediam a navegação de barcos e grande canoas. O sentimento de impotência tomou conta do povoado, as pessoas passavam o dia empoleirados em canoas, navegando por entre ruas e estradas de seringa, esperando a vazante dos rios.

Famílias inteiras abandonaram suas casas, comerciantes fecharam as portas dos estabelecimentos e até o puteiro foi alojado em um vagão da Maria Fumaça abandonada nas proximidades da estação. O padre e suas beatas rezavam freneticamente em um altar improvisado em baixo de uma ingazeira, clamando e rogando a Deus que a natureza desse uma trégua.

Não se sabe se foram as rezas ou as oblações, o certo é que no mesmo ritmo que inundou Vila Murtinho, as águas foram recuando e deixando como regalo nas casas, ruas e estradas de seringas, toneladas de sedimentos que desceram dos Andes e mudaram a geografia do lugar. Vila Murtinho, agora parecia uma cidade que fora engolida por dunas, os mais velhos, boquiabertos não sabiam por onde recomeçar a vida e nem como retirar do povoado tanto sedimento.

Meu pai, um dos observadores do evento, disse que a vida em Vila Murtinho, se resume em dois períodos, separados pela fatídica cheia que mudou a geografia do lugar e a feição das pessoas, estarrecidas diante de novos e gigantescos desafios. As putas, com medo que a catástrofe ocorresse novamente no próximo inverno, subiram na primeira Maria Fumaça que andou na ferrovia depois de meses de conserto de seus dormentes, desceram na estação de Abunã e se embrenharam rumo aos seringais do Acre, onde mulheres eram escassas e o dinheiro era farto.

Autor: Simon O. dos Santos – Membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL e Mestre em Ciências da Linguagem pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

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