101 anos da Estrada de Ferro Madeira Mamoré: símbolo de coragem, cooperação internacional e vitória útil

*Ricardo Leite

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Percival Farquhar, o pai da EFMM

“Essa ferrovia vai ser o meu cartão de visitas!” Provavelmente, nem o visionário empresário norte-americano Percival Farquhar, pai da EFMM, que disse isso no desafio público e cumpriu, poderia imaginar o futuro – que está aí para quem quiser ver nas ruas de Porto Velho –, da mais espetacular e inacreditável obra da sua vasta rede de empreendimentos latino-americanos, que iam desde Cuba até a Argentina. Farquhar jamais perdeu a crença no Brasil, seu centro de negócios e de sua vida, por muitos anos, morador do Rio de Janeiro.
Decorridos 101 anos da conclusão da ‘ferrovia impossível’ neste 1º de agosto de 2013, Porto Velho e Rondônia são o cartão de visitas de um novo Brasil, de uma nova civilização mestiça, nascida do caldeirão cultural da épica Estrada de Ferro. Tudo indicava que jamais essa desconhecida fronteira noroeste fosse ‘pra frente’. Porto Velho seria mais uma cidade pequena da Amazônia profunda – ou talvez nem existisse ou virasse terra boliviana anexada –, e não o mais populoso município fronteiriço do Brasil, dono de duas enormes usinas hidrelétricas que mantém o país em funcionamento. Pelo legado geográfico e humano da EFMM, esse sentido de vitória útil sobre adversidades de todo tipo é claro e perene. Antes, porém, sua construção foi um ato de coragem e de cooperação entre nacionalidades variadas, sobretudo brasileiros e americanos, unidos, como nunca na História, em um esforço comum memorável.
Coragem, porque a ferrovia foi construída para transportar por terra o valiosíssimo látex brasileiro e boliviano na forma de grandes bolas, antes submetidas à viagem nas fatais cachoeiras e corredeiras do Rio Madeira, não um rio qualquer, mas um colosso feroz a serpentear por uma terra isolada de tudo, no coração da mais brutal selva tropical do planeta, e que ao fim e ao cabo, derrotou duas outras expedições na década de 1870. ‘Nem com todo dinheiro do mundo e metade da população do planeta trabalhando, essa obra será concluída’. Esse foi o epitáfio do sonho, publicado para afugentar novos incautos, nos jornais da Europa e Estados Unidos, pela empresa que só conseguiu fincar oito quilômetros de trilhos.
Finalmente, a EFMM representa também a cooperação internacional, de povos, de gente de todo canto da Terra, captada em escritórios empresariais espalhados de Pequim a Roma. Mais de 50 nações representadas nessa aventura do fim do mundo, quase uma ONU da época. Trabalhadores cheios de esperança no eldorado da borracha, cujo sangue, suor e lágrimas não foram em vão. Esse imenso esforço coletivo deu frutos vivos, e tornou-se um exemplo de integração humana, da força de uma babel de línguas capaz de criar algo grandioso num lugar inóspito e nas condições mais adversas possíveis.
Pelo sentido de coragem, cooperação internacional e vitória útil sobre obstáculos impossíveis, a Estrada de Ferro Madeira Mamoré (nome dado pelo também visionário Imperador D. Pedro II), é uma patrimônio da humanidade desde sua nascença. Quer agora apenas a homologação formal da Unesco, organismo internacional que ajuda a preservar obras e locais magníficos, valiosos para a raça humana. Esse ato jurídico não tem preço, por suas conseqüências positivas para a obra em si e para o lugar onde ela está. É, enfim, justíssimo, e vale a pena lutar por ele. Por Porto Velho, Rondônia e pelo Brasil.

*Ricardo Leite é procurador federal e coordenador do Comitê Pró-Candidatura da EFMM a Patrimônio Cultural da Humanidade.

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